sábado, 8 de outubro de 2011

Entendendo os adolescentes

Com o advento da puberdade e da adolescência, novas situações e interesses oferecem-se aos jovens. Tais interesses estão relacionados ao grupo social do adolescente. São, por esse motivo, sempre considerados como forças de interesses sociais.
    Na escola, o adolescente sente novas responsabilidades e recebe novos direitos (English e Pearson). Desenvolve relações diferentes com os colegas, os professores e, em função delas, com o lar e a comunidade.
    O estudante sente-se como nova força da comunidade e procura desempenhar-se à altura dessas obrigações adquiridas.
    Procura identificar-se aos colegas e, no entanto, sente-se inteiramente diferente deles. Aspira igualar-se aos professores e é assaltado por dúvidas e angústias referentes às possibilidades de êxito ou insuficiência. Necessita, acima de tudo, provar a si próprio e aos outros sua originalidade, valor próprio, capacidade e habilidade para vencer.
    Esforça-se, estuda, desenvolve determinado assunto, brilha em certas matérias, aplica-se em esportes, oratória ou maratonas intelectuais. Em alguma coisa há de ser o primeiro ou, pelo menos, bastante respeitado. Isso vem satisfazer à necessidade psicológica primordial, qual seja, a de se destacar, de impor a própria personalidade e reafirmar a individualidade.
    A co-educação amplia os horizontes do adolescente. O contato com adolescentes de outro sexo desenvolve-lhe o desembaraço; uma atividade afetiva mais livre e natural, isenta da dolorosa autoconsciência daqueles que não tiveram o necessário contato, nem a convivência, que gera a naturalidade das relações sociais com o sexo oposto. Não cremos que ainda haja defensores do ensino unissexual, da segregação dos rapazes e moças, seja qual for o pretexto invocado.
    Torna-se necessário que rapazes e moças aprendam a trabalhar lado a lado, sem a evocação constante de emoções sexuais. Um ajustamento dessa natureza tornar-se-á muito mais difícil quando se estabelece a segregação de meninos e meninas nos trabalhos escolares.
    As relações entre o professor e o adolescente são muito mais complexas e cheias de óbices que com as crianças. Nessas relações dos escolares adolescentes, encontramos identificação, "paixonites", despeito e ciúmes do professor e, sentimentos de depressão e exaltação por parte do adolescente.
     O adolescente encara o professor como alguém que sabe mais, conhece as soluções dos problemas, e é capaz de enunciá-las. Essa atitude do jovem pode traduzir-se mentalmente como estimulante ou deprimente. Pode animar o jovem a estudar, a aplicar-se com rigor e severidade à conquista da matéria, como também, deprimir e abater o ânimo do estudante, que passa a desinteressar-se pelo assunto. Predomina, nesse caso, a antipatia que o estudante sente pelo professor, englobando, nessa atitude, sentimentos de insuficiência, de inferioridade e de suposta incapacidade perante o brilho do mestre.
    As penalidades escolares devem, igualmente, merecer toda a consideração, quando se trata de estudantes adolescentes. Os jovens parecem sofrer e o assunto ser cuidadosamente estudado. Devemos evitar, a todo custo, as conseqüências emocionais que os castigos parecem acarretar ao adolescente.
    Contudo, diremos, ainda, que o jovem com a sensibilidade exagerada e fácil ressentimento que o caracterizam pode considerar a punição como agressão pessoal destinada a inferiorizá-lo perante si mesmo e os outros. As conseqüências dessa atitude do jovem são absolutamente imprevisíveis, podendo levar à profunda depressão (por sentir-se injustiçado), ao desinteresse completo pela escola e, até mesmo, ao afastamento dos trabalhos escolares, por definitivo.



Mau aproveitamento escolar


    Uma vivência traumatizante sofrida pelo adolescente, com um professor neurótico, irônico ou sádico poderá ter graves conseqüências emocionais, projetadas sobre a escola e os trabalhos escolares. Muitas vezes, os fatos se passaram na infância ou meninice, mas é na adolescência que vamos encontrar os resultados desses traumas.
    Algumas formas de ansiedade podem bloquear o rendimento intelectual do adolescente, inibindo-o e impedindo seu progresso escolar. Muitos jovens são capazes e conhecem as matérias, porém falham por algum motivo: sentimento de culpa, medo de vitórias, receio de maior responsabilidade (de continuar vencendo). Em alguns jovens, percebemos o temor da expansão, de crescimento intelectual, de falta de confiança em si mesmos e no seu rendimento escolar. Não se esforçam por acharem-se incompetentes e preferem nem tentar.
    A situação edipiana é responsabilizada em alguns casos de má escolaridade: os dos adolescentes passivos que, temem crescer e ser como o pai, ou sentem que não podem competir com ele; as jovens que também não querem agradar suas mães coagentes e dominadoras ou se identificar com elas e, através do mau aproveitamento escolar, conseguem seu objetivo.
    A má escolaridade do adolescente pode, ainda, em outros casos, ser devida a uma deficiência mental que, já diagnosticada e avaliada anteriormente, pode interferir dos 16 aos 18 anos de idade. Os pais, em geral, não deixam de nutrir esperanças de melhora, confiantes no progresso científico, novos métodos de terapia, etc. Todas as perguntas ansiosas que fazem ao médico giram em torno das "probabilidades futuras" do adolescente, quando nosso verdadeiro objetivo deve ser a avaliação das possibilidades "agora" do adolescente deficiente mental.
    De acordo com Thom, as principais causas do mau aproveitamento escolar do adolescentes são as seguintes:
1. mau preparo nos anos escolares antecedentes;
2. precipitação dos pais em fazerem as crianças entrar na escola primária com menos idade e, portanto, não poder enfrentar o ensino do 1º ciclo com eficiência;
3. moléstias ou defeitos físicos, obrigando a criança a faltar a muitas aulas;
4. transferências repetidas de escola a escola, por motivo de viagem, profissão dos pais (militares, diplomatas, jornalistas, etc.) ou mudança de casa;
5. incapacidade de concentração no trabalho escolar, causada por excesso de atividades extracurriculares, que roubam o tempo necessário ao exercício dos deveres escolares;
6. ocupação ou interesse com outros assuntos, como atletismo, teatro, ou mesmo namoro;
7. falta de interesse nos assuntos escolares, por não haver motivação. O adolescente, ao invés de estudar, lê ou trabalha em outros setores que não trazem vantagem ao progressão escolar;
8. problemas emocionais: sentimentos de que os trabalhos escolares são difíceis demais; insistência neurótica de pais que procuram dessa maneira compensar sua própria insuficiência escolar; pais excessivamente ambiciosos ou perfeccionistas;
9. em certos casos, o jovem pode estabelecer para si mesmo objetivos tão elevados e difíceis que se torna impossível, no momento, realizá-los. Isso lhe produzirá sentimentos de frustração e insuficiência, que determinarão mau aproveitamento escolar;
10. há jovens que, embora não apresentem um retardo mental (pois esses geralmente não chegam ao 1º ciclo, tendo estacionado antes), têm, contudo, uma inteligência menos aguda e que não lhes permite absorver os ensinamentos do curso, ao lado de outros adolescentes. Essas crianças permanecem na escola a rogo ou ameaça dos pais e, geralmente, se sentem infelizes, deprimidas, envergonhadas, não sendo raras as eventualidades de tentativa de suicídio. Muitas vezes uma medida simples como a transferência do 1º ciclo para o curso técnico resolveria a incapacidade do aproveitamento escolar;
11. a indiferença ou ignorância dos pais quanto à tendência vocacional dos filhos, por exemplo, cursar o ensino técnico quando é uma criança com nítida inclinação musical;
12. a preocupação com a situação econômica da família pode prejudicar o bom aproveitamento escolar. O jovem sente-se como uma carga no orçamento de casa, procurando com isso trabalhar nas horas vagas, dedicando, pois, menos tempo ao estudo;
13. a falta de popularidade entre os colegas pode acabrunhar de tal forma o jovem, a ponto de perturbar-lhe os estudos. O adolescente que não se considera aceito e estimado pelos colegas (seja pela cor, credo religioso ou político, ou por discriminação racial) sente que a posição na escola não oferece estímulo ou segurança para seu desenvolvimento intelectual necessário. Essa situação pode acarretar distúrbios emocionais graves, inclusive a recusa terminante de voltar à escola. Em outros casos, no entanto, essa impopularidade estimula imensamente o jovem a brilhar nos estudos, sobressaindo-se dessa forma perante os colegas;
14. a recreação social, longas horas de divertimento, atividades extracurriculares, "paixonites", todas essas atividades podem interferir no bom aproveitamento escolar, devendo ser orientadas com bom senso e justiça;
15. em muitos casos, o ambiente escolar pode desajustar o adolescente. Isso sucede quando os pais matriculam os filhos em escolas de exigências econômicas elevadas e onde o adolescente entre em contato com outros de nível social e econômico diferente dos dele.
    O adolescente, nessas escolas, passa a pertencer a um "grupo" de ambiente diferente do próprio e que só pode acompanhar com dificuldades de toda sorte.
    Faltam-lhe possibilidades financeiras para nivelar-se aos colegas. Os pais procuram, na medida do possível, enfrentar as despesas da escola. A situação do adolescente é delicada, sentindo-se ele frustrado perante os colegas.
    Necessita então compensar o desapontamento. Ou falseia a verdade inventando situações inexatas a respeito de si próprio, de si mesmo e dos seus, ou abandona os estudos para trabalhar e assim poder continuar matriculado.
    Trabalhando para se manter, dificilmente consegue apresentar o mesmo interesse e aproveitamento escolar. O sacrifício dos pais pesa-lhe nos ombros e o ambiente inadequado excita-lhe a sensação de inferioridade.
    Para "pertencer ao grupinho", o adolescente esquece as capacidades, voltando-se, inclusive, contra o próprio ambiente familiar. Envergonha-se da casa em que mora, da cultura e maneiras simples dos pais. Não se atreve a trazer amigos para a casa modesta.
    Essa situação psicoemocional grave pode acarretar até mesmo a delinqüência (roubo, associações suspeitas para ganhos fáceis, negócios ilícitos e escusos, etc.) e, em muitos casos, o abandono também das aulas, por sentimento de insuficiência moral para enfrentar os traumatismos sociais que a escola impõe.
    Sobre tais situações deveriam refletir aqueles pais e responsáveis pelo adolescente que, levados pela vaidade ou procura de prestígio social, acarretam aos filhos sofrimentos morais e desajustamentos psicossociais.
    Em conclusão: muitos dos problemas escolares do adolescente poderiam ser prevenidos se mais esforços fossem feitos pelos responsáveis, pais de um lado e professores do outro, em conseguir para o adolescente um entrosamento maior da casa, escola e comunidade. As atividades extracurriculares, prolongando as horas em contato com a escola, tornando-a mais do que simples abrigo de algumas horas de transmissão de conhecimentos, poderiam dar à escola o aspecto de "prolongamento do lar e ante-sala da comunidade".



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Extraído do livro "Os
Adolescentes: Conceito, Dinâmica e
Orientação do Adolescente" - Mielnik, Isaac - Ed. Ibrasa - 1984

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